Vai Acabar em Pizza?

THAÍS NICOLETI DE CAMARGO
Colunista da Folha Online

Em tempos de ameaços de CPI e das tão conhecidas manobras que se fazem com o intuito de "evitar o desgaste do governo" -este um dos eufemismos de costume-, a população já começa a se perguntar: será que, mais uma vez, tudo "vai acabar em pizza"?

A expressão tem uso freqüente sobretudo quando a nação se vê às voltas com a possibilidade de investigar escândalos de corrupção. Bastante saborosa (sem trocadilho), ilustra um dos mais férteis recursos expressivos da linguagem. Estamos diante de uma figura de palavra denominada "metonímia", que pode ser definida como a translação de significados por proximidade de idéias.

Para entender isso melhor, vamos desdobrar a expressão: ao dizermos que algo "vai acabar em pizza", pretendemos afirmar que, ao fim e ao cabo, todos confraternizarão, naturalmente devorando uma pizza. E não é fortuito que seja esse o prato escolhido para representar o ágape —afinal, a pizza é talvez uma das poucas unanimidades gastronômicas, capaz de reunir ao seu redor pessoas de diferentes gostos (e, por extensão, de diferentes interesses e pensamentos).

O uso de um termo concreto ("pizza") no lugar de um abstrato ("confraternização") é um dos tipos de relação que configuram a metonímia. O inverso também o seria. Há situações em que o termo concreto é que é substituído pelo abstrato. Observe a seguinte passagem, extraída de texto jornalístico: "Após uma reação inicial frustrada e agressiva, a liderança do governo correu para negociar uma saída". Ora, liderança (substantivo abstrato) é o ato de liderar ou a capacidade de fazê-lo, mas, na frase anterior, representa os líderes (substantivo concreto) do governo. Esse tipo de construção ocorre também no seguinte exemplo: "A cidadania tem o dever de recusar leis carregadas de falhas". Na verdade, onde se lê "cidadania" (termo abstrato), deve-se compreender "cidadãos" (termo concreto). Na famosa frase cunhada após a vitória da campanha petista à Presidência da República, "A esperança venceu o medo", também ocorre a substituição do concreto pelo abstrato. Na verdade, as pessoas esperançosas venceram as medrosas. Com toda a certeza, a frase metonímica tem muito mais impacto.

É essa relação semântica de contigüidade que constitui a metonímia. Esta é uma figura comumente empregada na linguagem cotidiana. Quando se diz que alguém comeu dois pratos de comida ou bebeu vários copos de vinho, ninguém imagina que a pessoa tenha ingerido pratos e copos. Estes são os recipientes ou as medidas, continentes empregados no lugar de seu conteúdo. Vejam-se os textos de receitas culinárias: "Acrescente à massa uma colher de sopa de manteiga e uma xícara de chá de óleo". E aqui vale fazer um parêntese: a experiência que temos do universo permite-nos compreender que não se trata de "sopa de manteiga" nem de "chá de óleo". Ainda assim, há quem prefira evitar essa possibilidade de leitura e diga "colher das de sopa de manteiga" e "xícara das de chá de óleo"…

A própria palavra "chá" é um exemplo de metonímia, pois "chá" é, na verdade, o nome de determinado tipo de planta, de cujas folhas se faz uma infusão. O sentido ampliou-se de forma tal que hoje "chá" funciona com um sinônimo de "infusão". Temos novamente aqui o concreto no lugar do abstrato.

Pode ocorrer de o objeto ser substituído pela matéria de que é feito. Quem não se lembra do delicioso samba "Olê, Olá", de Chico Buarque? Em certo trecho da canção, ouvimos: "Amiga me perdoa se eu insisto à toa/ Mas a vida é boa para quem cantar/ Meu pinho, toca forte que é pra todo mundo acordar/ Não fale da vida, nem fale da morte/ Tem dó da menina, não deixa chorar". "Pinho" é a madeira da qual se fazem os violões, mas, na letra da música, substitui o termo "violão". Da mesma maneira, ouvimos alguém dizer que não tem um níquel no bolso —"níquel" é a matéria de que são feitas as moedas. Temos, pois, metonímia outra vez.

A palavra "caça-níquel" incorpora o processo metonímico da palavra "níquel" (cujo sentido é o de "moeda"). O mesmo se pode dizer do termo "sem-teto", pois a palavra "teto" está no lugar de "casa", ou seja, é a parte que representa o todo, tipo de metonímia por alguns autores chamado de sinédoque. O composto "pé-de-chinelo", cujo sentido é o de "pessoa pobre, sem recursos" tem na origem um processo metonímico, dado que "chinelo" é o nome que se dá a um calçado velho ("sapato velho e acalcanhado", segundo o dicionário "Aurélio"). Assim, a pessoa pobre, por usar chinelos, passa a ser chamada de "pé-de-chinelo".

Por vezes, a metonímia configura a permuta de um produto por seu lugar de origem: usar o termo "havana" no lugar de "charuto" é um exemplo disso. A palavra "greve", de origem francesa, nasceu do topônimo Place de la Grève, ponto de reunião de trabalhadores e operários desempregados ou descontentes com suas condições de trabalho. A expressão "faire grève" ("fazer greve) data de 1805 com o sentido que hoje conhecemos (de "abstenção deliberada do trabalho"). Até 1930, usou-se no Brasil com a mesma acepção a palavra "parede", mas o galicismo tornou-se a forma preferida da população e hoje figura até mesmo em documentos oficiais.

O nome de uma obra pode ser substituído pelo de seu autor e, nesse caso, temos ainda a metonímia. Ler Camões ou Machado de Assis no lugar de ler as obras desses autores é um tipo comum de construção. O mesmo se pode dizer quanto a quadros de pintores. Noticiou-se no ano passado o roubo de um Munch (a intrigante tela "O Grito", do pintor Edvard Munch). Dizia um título jornalístico: "Identificados envolvidos no roubo de Munch".

Os exemplos são inúmeros, pois a metonímia está entre os recursos mais fecundos da língua. O leitor certamente se lembrará de muitos outros casos.

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